Birding Tour Cabrucas 2018/1

Birding Tour Cabrucas 2018/01 (28 de março a 4 de abril)

Mais uma expedição de observação de aves nas matas secas do Planalto da Conquista à exuberante mata ombrófila da hiléia no sul da Bahia, desta vez guiando os passarinheiros Fabio Giordano, Gabriel Caram e Julio Guedes, guiados pelo ornitólogo da Canindé Birdwatching, Igor Camacho.

O primeiro dia de observação de aves foi na Serra do Arrepio, na cidade de Poções, sudoeste baiano, e quem nos recebeu foi o guia local e futuro estudante de biologia, Mateus Gonçalves. Mais uma vez o fruxu-baiano (Neopelma aurifrons), este raro e ameaçado endemismo da Mata Atlântica brasileira, foi muito bem observado pelo grupo.

Fruxu-baiano (Neopelma aurifrons)

O balança-rabo-canela (Glaucis dohrnii) foi outro que se apresentou de uma vez e pousou bem próximo ao grupo, atendendo ao assobio do guia da Canindé Birdwatching.

No período da tarde continuamos na cidade de Poções para a observação de aves na caatinga. Com as chuvas no sertão a caatinga estava verde e haviam muitas flores e frutos, o que atraiu o beija-flor-safira (Hylocharis sapphirina) e a guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis), esta última migratória na região.

A chuva atraiu também o arco-íris! Todas as cores da caatinga vieram parabenizar o Gabriel, no lajedo da cidade!

Parabéns, Gabriel! A caatinga te presenteia com suas cores!

Borboletinha-baiana (Phylloscartes beckeri)

Na manhã seguinte deixamos Poções e fomos para observar aves nas matas montanas de Jequié em busca da borboletinha-baiana (Phylloscartes beckeri), com a companhia do guia local Sidney Vitorino. E ela estava lá, como sempre. O chupa-dentes (Conopophaga lineata lineata), forte candidato a ser dividido da sua forma mais ao sul, o C. l. vulgaris, foi outro encontro conseguido pelo grupo. Rabo-amarelo (Thripophaga macroura), tangará-príncipe (Chiroxiphia pareola), topetinho-vermelho (Lophornis magnificus), golinho (Sporophila albogularis) e tantos outros animaram a manhã na Mata dos Cajueiros, ou Morro do Maravilha (“Mara”, para os íntimos).

Mata Atlântica ameaçada de Jequié

Impressiona a diversidades de espécies que podem ser observadas em Jequié e a ameaça que estas sofrem pela ausência de Unidades de Conservação que zelem pelo habitat dessas espécies sensíveis que ocorrem na cidade. Nosso alvo na localidade, a borboletinha-baiana, é endêmica dessas florestas de altitudes elevadas na Bahia e no extremo norte de Minas Gerais e está ameaçada de extinção pela perda do seu habitat. A proteção legal dessas áreas, aliada a projetos socioambientais e iniciativas autônomas são cruciais para a conservação local. A cidade de Jequié é um dos pólos da ferrovia Oeste-Leste e as compensatórias ambientais deste empreendimento podem auxiliar na desapropriação de terras para a criação de Unidades de Conservação.

Ferreirinho-de-testa-parda (Poecilotriccus fumifrons)

Antes de irmos para Itacaré, passamos na margem esquerda do Rio de Contas para observar o ferreirinho-de-testa-parda (Poecilotriccus fumifrons).

No caminho para Itacaré, demos uma passada em Ibirataia na busca do acrobata (Acrobatornis fonsecai), mas não foi desta vez que o encontramos. Uma chuva fina, típica do sul da Bahia, ao som de bandos do araçari-de-bico-branco (Pteroglossua aracari), nos recebeu nas cabrucas de Ibirataia. Como diz o ditado baiano “no verão chove todo o dia e no inverno o dia todo”, contemplamos este dito in loco, enquanto bandos de andorinhas-do-campo (Progne tapera) faziam sua última refeição coletiva e se deslocavam para o dormitório às margens de um lago artificial. Chegamos na RPPN Pedra do Sabiá, em Itacaré, na noite deste dia.

A manhã seguinte foi para observarmos aves nas dependências do Parque Estadual da Serra do Conduru (PESC), no litoral sul da Bahia, especificamente no município de Uruçuca. Lá buscávamos duas aves em especial: o anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea) e a choquinha-de-rabo-cintado (Myrmotherula urosticta), que apareceram sem cerimônia!

Anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea)

O entardecer deste dia fomos observar aves na RPPN Rio Capitão, em Itacaré. Os aracuãs-de-barriga-branca (Ortalis araucuan) estavam presentes, mas não queiram se mostrar muito para fotos. Em compensação o poiaeiro-de-sobrancelha (Ornithion inerme), espécie com distribuição amazônica também, colaborou com boas posadas. A noite nos reservou a caburé-miudinho, já nas dependências da Pedra do Sabiá, que foi nossa hospedagem e nosso destino de observação de aves no dia seguinte.

A manhã na Mata Atlântica da hiléia baiana se mostrou firme e forte na Pedra do Sabiá, com seus bandos mistos devorando frutas e invertebrados. O ipecuá (Thamnomanes caesius) liderava os bandos de sub-bosque formados por aves como o bico-assovelado (Ramphocaenus melanurus), choquinha-de-flanco-branco (M. axillaris) e a de-rabo-cintado. Até o  zidedê (Terenura maculata) desceu das copas e se aventurou nas partes baixas da floresta. Enquanto isto, a saíra-galega (Hemithraupis flavicollis) mantinha o ritmo e proteção dos saís-azuis (Dacnis cayana), saíras-sete-cores (Tangara seledon) e a pérola (T. cyanomelas), assim como outras aves frugívoras e onívoras. Nas cabrucas da RPPN, às margens do Rio de Contas, observamos o pica-pau-anão-de-pintas-amarelas (Picumnus exilis), recentemente reconhecido como espécie plena.

Não tardamos na Pedra do Sabiá e fomos na manhã deste dia tentar encontrar o acrobata na cidade de Ilhéus. O encontramos com muita facilidade, porém este furnarídeo de copa não descia do seu habitat enquanto forrageava, o que fez do Fabio o único – sortudo – do grupo a registrar o endêmico e ameaçado acrobata. Durante a tarde seguimos para a cidade de Porto Seguro.

Na manhã deste dia observamos as aves da RPPN Estação Veracel e o maritaca-de-barriga-azul (Pionus reichenowi) se mostrou enquanto se banhava dos primeiros raios de sol sobre uma árvore seca nas proximidades da sede da reserva. Nas mussunungas, ambiente exclusivo da hiléia baiana, observamos a fêmea de bandeirinha (Discosura longicaudus) se deleitar com o néctar da grevilha, enquanto o sabiá-pimenta (Carpornis melanocephala) e o flautim-marrom (Schiffornis turdina) forrageavam na borda da estrada. Durante a noite fomos, literalmente, feitos de bobo pela corujinha-sapo (Megascops atricapilla). Explico: sempre que tentávamos atrair o urutau-de-asa-banca (Nyctibius leucopterus), quando ele estava quase sobre nós, a bendita da corujinha-sapo cantava e afastava o urutau para longe. Tentamos por três vezes, em três locais diferentes, atrair para perto esta rara ave de hábitos noturnos e nas três vezes a corujinha cantou e espantou o urutau. Bem, ficou para uma outra oportunidade este encontro. Como consolação, observamos o urutau (N. griseus) nas bordas de uma das mussunungas da RPPN. Já que o urutau estava “dando mole”, o guia Igor Camacho pode testar a dupla exposição e brincar com o urutau. Em homenagem ao recente mãe-da-lua-gigante (Nyctibius grandis) que foi registrado recentemente pelo guia local Jaílson Souza, o “mãe-da-lua-gigante” parece levar seu “filho” para passear em um galho…

“Trollando” o mãe-da-lua com foto em exposição múltipla

O último dia de observação de aves na Costa do Descobrimento foi no Parque Nacional do Pau Brasil, onde fomos recebidos pelo geógrafo e analista ambiental Lauro Paiva. A infraestrutura desta importante Unidade de Conservação e a receptividade de sua equipe são dignas de nota. O Lauro Paiva nos recebeu e fez questão de contar um pouco sobre a história do parque e sua importância para a conservação da Mata Atlântica.

Lauro Paiva falando sobre o parque e sua importância para o grupo

As florestas estavam com tantos frutos que as aves estavam dispersas, o que dificultou a observação de aves. Haviam muitos muricis frutificados, muitos mesmo! Não havia um murici sem frutos! As aves frugívoras – principalmente o crejoá (Cotinga maculata) – estavam todas de papo cheio e caladas. O chorozinho-de-boné (Herpsilochmus pileatus), ameaçado endemismo da hiléia, era uma das poucas vozes que compunham a paisagem do nosso último dia de expedição.

O dia seguinte ficou para nossa volta ao aeroporto de Ilhéus. E mais uma vez fechamos muito bem a Birding Tour Cabrucas!

E já estamos prontos para outra! A data da próxima Birding Tour Cabrucas é de 26 de setembro a 3 de outubro. Caso queiram mais informações, entrem em contato com a Canindé Birdwatching e vamos observar mais que aves!

O vídeo abaixo contém takes da última Birding Tour Cabrucas, assim como o itinerário e algumas espécies que podem ser observadas.

P.S.: Dedico este álbum para a Suely Diniz, mãe da companheira do Igor, que faleceu enquanto ele estava na estrada. Ele costumava chamá-la de “coruja”, pois seus óculos aumentavam seus olhos…

Grande sogra… deixou saudades… descanse em paz!