Birding Tour Cabrucas, 1° semestre de 2018

Está aberta a chamada para a primeira Birding Tour Cabrucas de 2018, que acontecerá entre os dias 28 de março e 04 de abril! A Birding Tour Cabrucas é um roteiro de observação de aves entre a caatinga dos municípios de Poções e as mussunungas de Porto Seguro, no sul da Bahia, em busca das suas aves, paisagens pitorescas e cultura diversificada.

Nossa primeira parada, no dia 29, será nas matas secas do município de Poções, a cerca de 270 quilômetros do Aeroporto Internacional Jorge Amado (IOS), em Ilhéus, onde chegaremos. Nesta pacata cidade os principais objetivos serão o fruxu-baiano (Neopelma aurifrons), o vira-folhas-cearense (Sclerurus cearensis), assim como as espécies endêmicas dos domínios da Caatinga, como o bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae) e o torom-do-nordeste (Hylopezus ochroleucus). Em Poções iniciará nossa busca pelo ameaçado balança-rabo-canela (Glaucis dohrnii), que ocorre em toda a extensão do nosso roteiro. Nesta etapa da Birding Tour Cabrucas contaremos com a perspicácia do guia local e amigo Mateus Gonçalves, responsável pelo atual conhecimento ornitológico da sua cidade.

A tarde do dia 29 ficará para conhecermos as matas de cipó e caatinga do Lajedo dos beija-flores, já no município de Boa Nova. Entre a bela paisagem formada por orquídeas e cactos-cabeça-de-frade (Melocactus sp.) buscaremos mais espécies endêmicas da caatinga, como o bacurauzinho-da-caatinga (Nyctidromus hirundinaceus), que dorme entre a vegetação do lajedo, e o enigmático gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus), endemismo do ecótone entre os domínios da Caatinga e da Mata Atlântica. Além destes, será possível observarmos algumas espécies de beija-flores que visitam as flores do Melocactus que se abre apenas ao entardecer.

Na manhã do dia seguinte, dia 30, continuaremos nossa imersão na árida caatinga baiana e mata de cipó do município de Boa Nova para buscarmos mais representantes restritos a estas formações florestais. A tarde deste dia será para nos deslocarmos para o litoral, precisamente para a cidade de Itacaré. Lá estaremos sob a aconchegante e sustentável hospedagem da Pedra do Sabiá, que tem como princípios estruturais a permacultura, a agricultura orgânica de base familiar e a proteção dos remanescentes florestais como uma Reserva Privada de Patrimônio Natural (RPPN). Quem nos receberá será seu idealizador, o sr Hugo, com uma ótima sopa vegetariana feita 100% de alimentos cultivados e preparados em sua propriedade. Este alimento para o “corpo e alma” nos nutrirá para entrarmos com tudo na densa e úmida hiléia baiana.

O primeiro dia (31) da nossa incursão nas matas úmidas do sul da Bahia será entre os mais de 9 mil hectares do Parque Estadual da Serra do Conduru (PESC), no município de Uruçuca, onde começa nossa busca pelos endemismos dos domínios da Mata Atlântica, como o tangará-rajado (Machaeropterus regulus), a cambada-de-chaves (Tangara brasiliensis), e os ameaçados sabiá-pimenta (Carpornis melanocephala) e choquinha-de-rabo-cintado (Myrmotherula urosticta). Neste local buscaremos pelo capitão-de-saíra-amarelo (Attila spadiceus), papa-moscas que possui distribuição amazônica, mas que na Mata Atlântica possui uma subespécie que é vulnerável a extinção e pode vir a se tornar uma espécie plena, o A. s. uropigiatus. Nas proximidades desta importante Unidade de Conservação iremos em busca do endêmico da hiléia baiana, o rabo-branco-de-margarette (Phaethornis margarettae) com a ajuda do guia local “Macaco”.

A tarde deste dia iremos conhecer a RPPN Rio Capitão, em Itacaré, que conta com uma ótima passarinhada em suas dependências, inclusive com possibilidades de encontrarmos o bandeirinha (Discosura longicaudus), o anambé-de-asa-branca (Xipholena atropurpurea) e a jandaia-de-testa-vermelha (Aratinga auricapillus) que nidifica no local, além de espécies com distribuição nos domínios da Floresta Amazônica que se isolaram no leste brasileiro, como o bico-assovelado (Ramphocaenus melanurus), o poiaeiro-de-sobrancelha (Ornithion inerme), os arapaçus bico-de-cunha (Glyphorynchus spirurus), garganta-amarela (Xiphorhynchus guttatus) e o de bico-branco (Dendroplex picus).

A manhã do dia 01 de abril a passarinhada será nas dependências da RPPN Pedra do Sabiá, onde buscaremos pelo endêmico e ameaçado chorozinho-de-boné (Herpsilochmus pileatus), mais espécies endêmicas da Mata Atlântica e as de distribuição amazônica, como o enigmático cricrió (Lipaugus vociferans). O cricrió é conhecido entre a cultura das cabrucas como capitão-do-mato, pois o hábito de cantar sempre que um grande mamífero atravessa seu território acusava a fuga dos escravos que trabalhavam nas fazendas, alertando os capitães do mato. Dái o pseudônimo local para o cricrió. Nosso almoço será na Fazenda Provisão, em Ilhéus, que nos receberá com uma deliciosa moqueca baiana e com as ameaçadas tiribas-de-orelha-banca (Pyrrhura leucotis) e dos tagarelas xexéus (Cacicus cela) que transitam em torno das dependências da “casa grande”. A tarde deste dia será para nos deslocarmos para o extremo sul da Bahia, na cidade de Santa Cruz Cabrália.

Durante todo o dia 2 de abril a observação de aves será realizada nas dependências da RPPN Estação Veracel, onde realmente começa nossa busca pelo criticamente ameaçado crejoá (Cotinga maculata), que nesta época fica “menos difícil” de ser detectado por estar se esbaldando das frutificações do açaí e do murici, abundantes nas dependências da RPPN. Por lá buscaremos pela maritaca-de-barriga-azul (Pionus reichenowi) e a tiriba-grande (Pyrrhura cruentata). Durante a noite dedicaremos nossa atenção para encontrar o enigmático urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus).

O último dia da Birding Tour Cabrucas, dia 3, será na exuberante Mata Atlântica do Parque Nacional do Pau Brasil, em Porto Seguro, onde é comum a presença do aracuã-de-barriga-branca (Ortalis araucuan) e arapongas (Procnias nudicollis), Nesta Unidade de Conservação iremos conferir o ninho da harpia (Harpia harpyja) que está ativo. Se dermos sorte, veremos este imponente gavião em cuidado parental! No Parna existem três mirantes que são muito atrativos para fotografia e observação de aves que ocorrem no dossel florestal, como o furriel (Caryothraustes canadenses) a cambada-de-chaves (Tangara brasiliensis) e o saí-beija-flor (Cyanerpes cyaneus). O dia seguinte será o deslocamento para Ilhéus e o retorno para nossas residências, cheios de espécies novas vividas e histórias para contar.

Você pode conferir como foram as Birding Tour Cabrucas de 2017 aqui: Birding Tour Cabrucas de 2017

A lista consolidada da com as 380 espécies observadas durante a última Birding Tour Cabrucas pode ser conferida aqui!

Para saber sobre os valores e condições da Birding Tour Cabrucas, entre em contato com a Canindé Birdwatching e venham observar mais que aves!

Paraíba do Sul, 18/12/2017

A Canindé Birdwatching, junto ao Doutorando e professor do CEDERJ Rafael Fernandes e seus alunos, foi na cidade de Paraíba do Sul para fazer reconhecimento de mais um hotspot para observação de aves no Rio de Janeiro.

A cidade está situada na região turística do Estado conhecida como Vale do Café, que faz referência à este ciclo econômico que dizimou grande parte das florestas semideciduais do vale do Rio Paraíba do Sul. Por sorte, o que restou destas florestas ainda abriga uma interessante diversidade de aves, inclusive as endêmicas da Mata Atlântica, como o tico-tico-do-mato (Arremon semitorquatus), o trovoada (Drymophila ferruginea) e a borralhara (Mackenziaena severa) que é abundante.

Mackenziaena severa

Porém, o destaque desta localidade vai para o chororó-cinzento (Cercomacra brasiliana), espécie endêmica da Mata Atlântica brasileira. Ainda que esta choca rabilonga tenha resistido ao devastador processo de desmatamento no vale do Paraíba do Sul para o cultivo de café entre os séculos XVIII e XX e ser relativamente comum nas capoeiras da região, a distribuição restrita e seus hábitos pouco conhecidos fazem o chororó-cinzento se aproximar da ameaça à extinção.

Cercomacra brasiliana

A lista das 99 aves observadas nesta curta, porém proveitosa saída de reconhecimento, pode ser acessada aqui.

Se você quer conhecer esta enigmática preciosidade da Mata Atlântica brasileira e um pouco da cultura local, vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

Sanhaçus e araras em Saquarema, 10/12/2017

Thalles, guia da Blue Birds BR, e o grupo na Lagoa Vermelha

A convite da operadora de turismo Blue Birds BR, a Canindé Birdwatching participou de uma proveitosa trilha entre a restinga e as águas hipersalinas da Lagoa Vermelha, no município de Saquarema, na Costa do Sol, Rio de Janeiro. Durante a trilha interpretativa entre esse ecossistema costeiro foram ressaltados os aspectos ambientais e históricos da região, a hipersalinidade da Lagoa Vermelha e seus estromatólitos, e as aves que o compõem.

O grupo foi majoritariamente composto por jovens, senhoras e senhores que não conheciam a observação de aves. Apenas um portava uma câmera superzoom e gostava de fotografar a natureza. Portanto, cada ave que se apresentava foi observada com encantamento, principalmente o colhereiro (Platalea ajaja), que arrancou o suspiro de todos! A beleza cênica das salinas e a ótima condução do guia da Blue Birds e amigo Thalles Pinheiro complementaram o passeio.

Enquanto passávamos pela salina de Vilatur, a mais ao sul do Brasil, observamos aves limícolas migratórias que forrageavam no limus dos recôncavos da Lagoa Vermelha e descansavam sobre as contenções dos tanques das salinas. O maçarico-branco (Calidris alba) predominava na paisagem com bandos numerosos e enredaram discussões sobre as políticas públicas de conservação do grupo.

Maçarico-branco, preto e branco

A parceria entre a Canindé Birdwatching e a Blue Birds BR é bastante antiga! Vem dos primórdios do curso de Ciências Biológicas e Biologia Marinha da Faculdades Integradas Maria Thereza, em Niterói. Lá cursavam o Igor Camacho (quem vos escreve) e a Shantala Torres, idealizadora da Blue Birds junto ao seu companheiro Thalles. Em 2014 a parceria gerou os destinos da Canindé Birdwatching no Parque Estadual da Costa do Sol (PECS) e o roteiro de birdwatching da Blue Birds BR. Os pássaros de Saquarema são testemunha desta parceria antiga, deste bando misto de canindés e sanhaçus! Estamos juntos, Blue Birds!

Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

 

APA de Maricá, 3/12/2017

A manhã do dia três de dezembro foi dedicada a acompanhar o amigo Daniel Mello e sua companheira Sonia Roberto, entre os ambientes de restinga e lagunar da Área de Proteção Ambiental (APA) de Maricá e seu entorno. O amigo Daniel estava em busca de fotos para seu livro Aves do Sudeste do Brasil, mas pouco tempo disponível para o nos fez sermos bem precisos em cada ponto visitado.

Daniel Mello fotografando o caboclinho em um dos ameaçados brejos da APA de Maricá

Sporophila bouvreuil pedomórfico

Iniciamos a manhã ouvindo a vocalização das garças-moura (Ardea cocoi) que estavam em uma colônia reprodutiva na encosta da duna de restinga arbórea que separa a lagoa do mar, enquanto papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva). Nos brejos adjacentes observamos o caboclinho (Sporophila bouvreuil) em plumagem pedomórfica (plumagem de jovem, mas que já está apto a reproduzir), cantando sobre os ramos da vegetação arbustiva. Durante este momento, compartilhávamos experiências de acompanhar o Márcio Reppening, doutorando que estuda os caboclinhos brasileiros e suspeita que os que habitam o litoral fluminense sejam uma espécie distinta.

Progne subis

Ainda nos brejos entre a lagoa e a restinga observamos a andorinha-de-bando (Hirundo rustica) e a andorinha-azul (Progne subis), ambas oriundas dos seus sítios reprodutivos na América do Norte. Não obstante, foi observada in loco a extrema importância e fragilidade dos ambientes brejosos da APA de Maricá e a necessidade abrupta na pressão dos poderes econômico e público contra a destruição desses ambientes. Toda a paisagem que circunda o Daniel na foto abaixo, ambiente brejoso que as andorinhas migratórias se alimentavam enquanto eram observadas , pode ser transformada em um campo de golfe com um hotel quatro estrelas. A encosta em que as garças nidificam pode dar lugar a uma hípica e a comunidade de pescadores artesanais que vivem, desde 1797, em casas simples na praia lagunar de nome Zacarias, pode ter como vizinhos shopping centers e  prédios de 14 andares.

Daniel foi pro brejo!

Continuamos nossa passarinhada no complexo lagunar de Maricá e fomos surpreendidos por uma fêmea de corucão (Podager nacunda), que levantou do seu dormitório enquanto passávamos. Entre as aves limícolas migratórias observadas, o destaque deste dia ficou para o momento perfeito do Daniel conseguir fotografar muito bem o maçarico-de-colete (Calidris melanotos) para compor a prancha da espécie!

Podager nacunda

 

Finalizamos nossa manhã com  65 espécies registradas nas ameaçadas zonas úmidas, os wetlands do município de Maricá.

Vida longa à APA de Maricá! Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

APA de Maricá, 2/12/2017

Com muita satisfação que a Canindé Birdwatching descreve em sua Caderneta os dias dedicados a mostrar as aves da Área de Proteção Ambiental (APA) de Maricá e seu entorno para Carlos Sosa, Eliane e Bob no dia 2 de dezembro.

O grupo do Carlos era formado pela nova geração de passarinheiros brasileiros, que surgiram durante o passeio mensal de observação de aves no Jardim Botânico do RJ (JBRJ), atividade enredada pelo amigo ornitólogo e membro do Clube de Observadores de Aves do RJ (COA-RJ), Henrique Rajão. Era notório o olhar de “mundo novo” que o grupo apresentava, onde toda ave que aparecia era motivo de observação, fotografia e porquês sobre sua biologia. Para o grupo de ninhegos não interessava o lifer, mas sim admirar natureza circundante e o despertar para uma atividade libertadora que é a observação de aves. Com a inocência que protege toda criança, a Canindé conduz uma sincera, feliz e produtiva passarinhada.

Carlos, Eliane e Bob fotografando o savacu-de-coroa na APA de Maricá

Nossa atividade começa após os primeiros raios de sol iluminar a margem esquerda do canal de São Bento, revelando aves como o savacu-de-coroa (Nyctanassa violacea) que nidificava sobre os arbustos na margem e a migratória águia-pescadora (Pandion haliaetus) que passava sobre nós rumo a lagoa de São José.

Pandion haliaetus

Na copa da mata seca registramos o caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus) e sanhaçus que forrageavam sobre o dossel. Interessante foi o registro do bio-chato-grande (Rhynchocyclus olivaceus) que emitia seu silvo curto e ecoante de algum local na mata seca, escondido dos olhos atentos do grupo. O bico-chato-grande é uma das espécies que provam que em algum momento as floresta amazônica e a atlântica um dia foram conectadas. A devastação que a Mata Atlântica sofreu ao longo de centenas de anos de colonização européia, a atual expansão urbana sobre a costa brasileira são ameaças fortalecidas pela distribuição ao extremo sul da população do bico-chato.  Seguimos para os brejos às margens da Lagoa de São para observar espécies aquáticas e associadas a ambientes alagados, com o destaque para a diminuta sanã-parda (Laterallus melanophaius).

Laterallus melanophaius

A importância dos brejos da PA de Maricá para as aves migratórias do Neártico fez-se notória mais uma vez ao observarmos outro visitante rapineiro, um jovem falcão-peregrino (Falco peregrinus)! Enquanto isto, uma simpática coruja-buraqueira (Athene cunicularia) defendia seu ninho.

Jovem de Falco peregrinus

Saímos dos limites da APA e fomos na Lagoa da Barra e Canal de Guarapina em buscas de mais visitantes setentrionais, as aves limícolas migratórias. E lá estavam elas forrageando nos lamaçais que surgiam com a maré baixa. Vimos seis espécies de maçaricos e batuíras! Interessante ressaltar que para observar aves limícolas, você tem que ser uma ave limícola! E isto implica em andar sobre os lamaçais e sentir o fundo da lagoa para ter a real sensação de como é este ambiente peculiar e o motivo dele ser importante. Observar aves demanda a quebra de paradigmas, o que este grupo fez de forma exemplar!

Terminamos o dia com  87 espécies registradas, dentre elas, 11% eram migratórias do Neártico. Isto corrobora todas as políticas públicas que protegem os alagados mundiais e suas rotas migratórias, inclusive a APA de Maricá!

Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

 

Birding Tour Cabrucas, setembro e outubro de 2017

Com muito orgulho  que a Canindé Birdwatching divulga os resultados da primeira e segunda Birding Tour Cabrucas. Foram dois grupos em duas semanas intensas de birding entre a Caatinga de Poções e as mussunungas de Porto Seguro, no sul da Bahia.

Eu, Mateus, Claudio e Kleber em Poções, BAO primeiro grupo foi composto pelos passarinheiros Cláudio Martins e Kléber Silveira. O primeiro é iniciante na observação de aves, enquanto o segundo carrega mais de mil espécies observadas. Chegamos no aeroporto de Ilhéus no dia 25 de setembro e já partimos para onde seria nosso primeiro destino de passarinhada, a cidade de Poções, que fica a cerca de 270 quilômetros do aeroporto. Poções está a 900 metros de altitude, na encosta sudoeste do Planalto da Conquista, local de transição entre os domínios da Caatinga e Mata Atlântica. Para esta parte da viagem contamos com a ajuda do jovem amigo e guia local Mateus Gonçalves, “cabra da peste” de ouvido supersônico que é responsável pelo conhecimento ornitológico contemporâneo sobre sua região, incluindo a redescoberta do fruxu-baiano (Neopelma aurifrons) para o estado da Bahia.

E é claro que com a união dos esforços o resultado não poderia ser diferente: só numa manhã observamos 96 espécies, incluindo o balança-rabo-canela (Glaucis dohrnii) e o fruxu-baiano!

Glaucis dohrnii, por Kleber Silveira

Saímos hiper satisfeitos com nossas observações em Poções e fomos para o município de Boa Nova, que é conhecido internacionalmente por sua diversidade ornitológica. Lá fomos observar a encantadora beleza cênica do lajedo dos beija-flores, que nesta época do ano recebe a ilustre visita do beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitos). Lá também é dormitório do bacurauzinho-da-caatinga (Nyctidromus hirundinaceus), endêmico das caatingas.

Na manhã do dia 27 fomos observar aves na Mata do Charme, em Boa Nova. Para esta localidade, a sensação ficou para o joão-baiano (Synallaxis cinerea), endemismo do sudeste da Bahia.

Synallaxis cinerea

A tarde deste dia ficou para o deslocamento até Itacaré, nosso próximo destino. Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Pedra não, passarinho! Fui alertado por um outro amigo, parceiro, gente boa e interessado demais, o guia local da cidade de Jequié, Sidney Vitorino, que ele havia encontrado um ninho do beija-flor-vermelho! E como estávamos de passagem pela cidade, fomos lá conferir. Valeu, Sid!

Chrysolampis mosquitus, por Claudio Martins

Chegamos na noite do dia 27 em Itacaré e ficamos hospedados onde seria nosso destino futuro de birding, a RPPN Pedra do Sabiá, que é parceira da Canindé e faz condições mais favoráveis para nossos grupos. Nesta noite fomos extremamente bem recebidos pelo sr Hugo, idealizador da reserva. A Pedra do Sabiá é baseada na sustentabilidade, economia solidária e de base familiar. Por isto, a alimentação servida no local é orgânica e vegetariana, o que confere paladar e vivência diferenciados.

 

Myrmotherula urosticta macho

No dia 28 fomos observar aves no Parque Estadual da Serra do Conduru, entre os municípios de Itacaré, Uruçuca e Ilhéus. Lá, já estávamos em meio a exuberante hiléia baiana. E, por sito, fomos em busca dos seus endemismos e das espécies de distribuição amazônica que, por vias biogeográficas, estão atualmente isoladas nos domínios da Mata Atlântica do nordeste e sudeste brasileiros. Lá os passarinheiros foram apresentados a duas coisas novas: às matas de tabuleiro, que ficam com seu solo completamente encharcado, e para o raro e ameaçado endemismo da Mata Atlântica brasileira, a choquinha-de-rabo-cintado (Myrmotherula urosticta).

Mata de tabuleiro do PESC

 

Em uma das trilhas do PESC fomos encontrados por um cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), que ficou observando observadores de aves por quase cinco minutos.

Cerdocyon thous no PESC

No período da tarde fomos em outra RPPN parceira da Canindé, a Rio Capitão, que conta com uma passarinhada muito agradável em sua propriedade, dentre elas o belíssimo tangará-rajado (Machaeropterus regulus). Neste dia observamos 101 espécies entre estas três localidades.

Na manhã do dia 29 observamos aves na Pedra do Sabiá em companhia do seu anfitrião Hugo, que fez questão de nos mostrar suas cabrucas e como esta cultura permitiu a manutenção do dossel florestal da região.

Sr Hugo contando a história das cabrucas, sob as cabrucas

Só em uma manhã na Pedra do Sabiá observamos 85 espécies, dentre elas o tangará-rajado (Machaeropterus regulus), a araponga (Procnias nudicollis), a caburé-miudinho (Glaucidium minutissimum) e o endêmico e ameaçado chorozinho-de-boné (Herpsilochmus pileatus). A tarde deste dia ficou para nos deslocarmos para nosso próximo destino, as matas do extremo sul da Bahia nas cidades de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália.

O dia 30 de setembro ficou para conhecermos a famosa Estação Veracel! Quem nos recebeu cordialmente foi a simpática Priscilla Gomes, responsável pelo uso público da Unidade de Conservação. Dentre as aves observadas (confesso que foram poucas, pois elas decididamente não estavam ativas), destaca-se a participação da Canindé (que convidado pela anfitriã e gentilmente permitido pelos clientes) em uma das aulas de formação de condutores locais! Nesta oportunidade, o guia Igor Camacho pode falar um pouco sobre a observação de aves e seu papel de transformação de vidas, citando inúmeros casos em que pessoas auxiliaram a natureza e geraram renda com a atividade. A Canindé Birdwatching agradece imensamente o espaço cedido à troca de experiências!

Enquanto a prosa rolava solta no curso, o Kleber e o Claudio fotografavam a saíra-pérola (Tangara cyanomelas) em torno da sede.

Tangara cyanomelas, por Kleber Silveira

O dia 1° de outubro ficou para conhecermos o Parque Nacional do Pau Brasil, acompanhados pelo experiente e receptivo analista ambiental e geógrafo Lauro Paiva.

Lauro, Claudio e Kleber em um dos mirantes do PARNA do Pau Brasil

O analista ambiental do Parna do Pau Brasil, Lauro, flagrou o grupo em ação!

Dentre as inúmeras conversas e quase quarenta quilômetros percorridos na Unidade de Conservação, duas situações merecem destaque: a primeira foi ver a satisfação do passarinheiro Kleber em ver seu tão sonhado lifer, a tiriba-grande (Pyrrhura cruentata). Após ouvirmos alguns bandos entre os mirantes de observação do parque, durante o deslocamento para outra atração o guia ouviu um bem perto e não perdeu a oportunidade: – Para, para! Tiriba-grande! Exclamou o guia.

Neste momento observamos um bando com cerca de seis indivíduos deste lindo psitacídeo endêmico da Mata Atlântica do leste brasileiro. E o Kleber, mesmo “tremendo na base” de tanta emoção, conseguiu fotografar seu lifer tão desejado. Dentre esses animais fantásticos que são as aves, o grupo que mais fascina e motiva o Kleber a viajar pelo Brasil para observar e fotografar são os psitacídeos. E a tiriba-grande era um sonho antigo, que a Canindé teve o maior prazer em realizar.

Pyrrhura cruentata, por Claudio Martins

Mas a emoção não acaba por aqui. Desta vez o guia que tremeu na base! Enquanto percorríamos as estradas do parque, já nos últimos momentos da Birding Tour Cabrucas, o Lauro para no meio de uma das vias e nos convida a descer do carro e entrar em uma trilha. Durante a caminhada ele diz: – Vou levá-los ao ninho do gavião-real (Harpia harpyja) que está sendo monitorado aqui no parque.

Ninho de Harpia harpyja no PARNA do Pau Brasil

É… por mais que nosso guia já tenha rodado bastante o Brasil, principalmente a Amazônia, ele nunca havia chegado tão perto de ver um gavião-real. Aí foi a vez das pernas dele tremerem, os olhos encherem d’água e o coração quase saltar da boca! Por alguma ironia do destino não encontramos o bicho nos arredores do ninho, mas só de ver aquele monte de gravetos unidos em forma de cuba no vértice central de um imponente e emergente exemplar do que restou da exuberante Mata Atlântica, valeu a emoção. E a chance de ver o gavião-real ficou para uma próxima.

Já nos últimos raios de luz deste dia fomos presenteados pela observação de um bando com mais de 12 indivíduos de tiribas-grande chegando no seu poleiro noturno nas proximidades de uma mussununga, enquanto o grupo gravava o canto do inhambu-anhangá (Crypturellus variegatus) e fechava com chave de ouro a primeira Birding Tour Cabrucas! O dia seguinte ficou reservado para o caminho de volta para o aeroporto de Ilhéus.

Silêncio! Estamos gravando…

Após um dia de merecido descanso, começa a segunda Birding Tour Cabrucas no dia 3 de outubro. Nos próximos seis dias a Canindé teve a árdua e prazerosa missão em guiar três conterrâneos fluminenses e amigos: o Alexandre Vidal, Felipe Queiroz e Ernani Oliveira. Após retirarmos o carro da locadora seguimos para a cidade de Jequié, nosso primeiro destino de birding.

No dia 4 fomos extremamente bem recebidos em Jequié pelo amigo e guia local Sidiney, que nos levou ao “morro do Mara”, um fragmento bem conservado de Mata Atlântica a cerca de mil metros de altura, justamente na divisa dos domínios fitogeográficos da Caatinga e Mata Atlântica. Logo no início da trilha observamos o chupa-dente (Conopophaga lineata), que visivelmente possui plumagem distinta da observada no sudeste brasileiro e que por isto é considerada uma subespécie distinta, a nominal. A faixa supraciliar é restrita à porção dorsal da cabeça, ao contrário da população ao sul da distribuição que a faixa branca se estende da fronte à nuca.

Porém, o destaque desta manhã ficou para o primeiro registro documentado do endêmico e ameaçado balança-rabo-canela (Glaucis dohrnii) para a cidade de Jequié e um dos lifers mais desejados pelo grupo!

O entardecer no Castanhão, um morro com cerca de 800 metros de altitude envolto por caatingas e matas de cipó, rendeu observações do papa-formiga-de-barriga-preta (Formicivora melanogaster), do gravatazeiro (Rhopornis ardesiacus) e o joão-de-cabeça-cinza (Cranioleuca semicinerea), que cantava durante o belíssimo pôr-do-sol.

Oitocentas espécies registradas! Invertido, mas oitocentas!

O segundo dia da Birding Tour Cabrucas foi na cidade de Poções e quem nos recebeu foi o jovem e extremamente competente guia local Mateus. Este dia foi muito produtivo, pois observamos o vira-folha-cearense (Sclerurus cearensis), o torom-do-nordeste (Hylopezus ochroleucus), assim como muitas espécies da caatinga, com destaque para o bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae). Neste dia o Felipe Queiroz alcançou a marca de 800 espécies documentadas na plataforma Wiki Aves. Parabéns!

Neopelma aurifrons

O terceiro e manhã do quarto dia foram para apresentar à este grupo as florestas úmidas e caatinga da cidade de Boa Nova. Nas Matas do Timorante e do Charme observamos muitas espécies típicas das matas úmidas do sul da Bahia, como o ipecuá (Thamnomanes caesius), pica-pau-anão-de-pintas-amarelas (Picumnus exilis) e o tão desejado rabo-amarelo (Thripophaga macroura), raro e ameaçado endemismo da Mata Atlântica brasileira. O diminuto anambezinho (Iodopleura pipra), o arredio chororó-cinzento (Cercomacra brasiliana) e até o papa-mosca-estrela (Hemitriccus furcatus) apareceram! No lajedo dos beija-flores não faltaram seu homônimo, com destaque para o beija-flor-vermelho e o bacurauzinho-da-caatinga.

Nyctidromus hirundinaceus

O final da tarde no lajedo dos beija-flores foi lindo, com um belo arco-íris se formando entre a breve chuva que caísa sobre a mata – não mais tão – seca de Boa Nova.

Felipe, Ernani e Vidal no lajedo de Boa Nova

Birding no PESC

Após observarmos as aves de Boa Nova, fomos para a cidade de Uruçuca, no litoral baiano. No dia 8 fomos observar as aves das matas úmidas do Parque Estadual da Serra do Conduru. As saíras cambada-de-chaves (Tangara brasiliensis) e saí-beija-flor, assim como o curió (Sporophila angolensis) e o urubuzinho (Chlidoptera tenebrosa) nos receberam ainda na estrada. Ainda sob a exuberante mata umbrófila densa da hiléia baiana tivemos o fantástico encontro com o sabiá-pimenta (Carpornis melanocephala) e a bela saíra-pérola (Tangara cyanomelas), que deixou o amigo Ernani Oliveira muito contente!

Carpornis melanocephala

O último dia ainda rendeu uma ligeira e molhada passarinhada na Pedra do Sabiá, onde observamos, mais uma vez, o anambé-se-asa-branca, assim como outras espécies típicas das florestas do sul da Bahia.

Assim a Canindé encerrou este ciclo maravilhoso da primeira e segunda Birding Tour Cabrucas de 2017, somando 360 espécies observadas em mais de cinco mil quilômetros rodados entre dois domínios ecológicos e suas distintas fitofisionomias.

Birding Tour Serra dos Órgãos, 18 a 20/11/2017

A Canindé Birdwatching teve a honra de acompanhar o casal passarinheiro Elaine Pereira e Vitor Saraiva numa molhada e empolgante excursão ornitológica na Serra dos Órgãos, região serrana do Rio de Janeiro. Foram três dias entre os alagados e florestas de baixada da Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), as florestas submontanas e montanas do Parque Estadual dos Três Picos (PETP) e Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO). A Elaine e o Vitor já estiveram no MoNa lhas Cagarras com a Canindé em maio deste ano. Agora eles podem dizer que conheceram as aves do Rio de Janeiro da Serra ao mar! Dá-lhe guerreiros!

O primeiro dia foi para desbravar as matas de baixada e alagados da REGUA, e os destaques ficaram para o arapapá (Cochlearius cochlearius), que nidifica nos alagados, o cuspidor-de-máscara-preta (Conopophaga melanops) e o tangarazinho (Ilicura militaris), assim como muitas aves das matas de baixada e das encostas da Serra dos Órgãos. Aproveitamos a última janela de tempo sem as chuvas que ficaram mais intensas durante o período e nos refrescamos na cascata da Trilha Verde.

O segundo dia ficou para subirmos o Pico da Caledônia em busca da saudade-de-asa-cinza (Lipaugus conditus), mas o mau tempo impossibilitou a investida. Ainda sim as matas do entorno permitiram que obtivéssemos ótimas observações da saudade (Lipaugus ater), que fazia jus ao seu nome por fazer ecoar seu monótono e sombrio canto pelas grotas escuras e chuvosas do Morro da Babilônia.

No nosso terceiro e último dia de observação de aves pela Serra dos Órgãos, nos enveredamos nas trilhas muito bem manejadas do PARNASO. Dentre elas está a trilha suspensa, uma ponte de alvenaria com 2km de extensão na exuberante mata de encosta com seus palmitais, taquaras e riachos. Mesmo com a chuva incessante encontramos a maria-cabeçuda (Ramphotrigon megacephalus) vocalizando em uma das touceiras de taquaruçus (Guadua tagoara), registro que a Elaine não desperdiçou em documentar! O araçari-poca (Selenidera maculirostris) e a choquinha-de-dorso-vermelho (Drymophila ochropyga) ajudaram a compor a lista de 42 espécies observadas nesta molhada manhã.

A Birding Tour Serra dos Órgãos termina de alma lavada! Registramos 198 espécies!!!

Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

Ester Ramirez, 9 a 12/09/2017

Ester Ramirez, Samir Mansur, Fabrício “Ruído” e eu, com as barbas ao vento, no Parque Estadual da Lagoa do Açu, em Campos dos Goytacazes.

A sina de viajar pelo Brasil com o intuito de registrar as suas 1919 espécies de aves, faz da Ester Ramirez a pessoa com mais espécies brasileiras – muito bem – fotografadas! Da mariquita-de-rabo-vermelho (Setophaga ruticilla) em Amajari (RR) ao corredor-crestudo (Coriphistera alaudina) em Barra do Quararí (RS), a Ester conseguiu fotografar 1450 espécies até o momento. Pode parecer muito, e é. Esta marca constitui cerca de 76% das espécies de aves já registradas no Brasil, incluindo as amplamente distribuídas, as visitantes, as raríssimas e as endêmicas do país. Digno de nota e reconhecimento deste feito é que a observação de aves é majoritariamente praticada por homens e ter uma mulher ocupando esta posição é um incentivo para as outras que se intimidam a passarinhar devido à baixa representatividade do gênero. Parabéns lady birder, sou seu fã!

E o que motiva a Ester viajar pelo Brasil para fotografar as aves brasileiras? Como já é conhecido por muitos, ela tem um plano audacioso em catalogar todas as aves endêmicas do Brasil e unificar estes registros em um livro. Mas o leitor está enganado ao pensar que este é o maior motivo de suas viagens. O âmago da motivação desta pequena guerreira está no amor incondicional ao seu companheiro Marcos! Sim! Seu cônjuge já observava aves mesmo sem saber que esta atividade existia. Depois de uma passarinhada guiada pelo amigo conterrâneo Bruno Rennó no Parque Nacional do Itatiaia, o casal foi “contaminado” pelo vírus da observação de aves e, desde então, sempre que possível, eles viajam juntos em busca dos emplumados. E em setembro de 2017 o destino da Ester foi o Rio de Janeiro, onde a Canindé teve o imenso prazer em guiá-la.

O “grande” amigo Daniel Mello, professor de Artes Visuais, observador de aves, guia e autor do livro Aves da Serra dos Órgãos e adjacências, estava há 4 dias na Serra dos Órgãos em busca da difícil e seleta lista de aves faltantes para a Ester. Sua jornada começou nos alagados de Guapimirim em busca do tricolino (Pseudocolopteryx sclateri), para então se enveredar nas matas de baixada dos municípios de Guapimirim e Cachoeiras de Macacu. Na “humilde” lista estavam a endêmica e ameaçada choquinha-pequena (Myrmotherula minor), o chibante (Laniisoma elegans) e o mãe-da-lua-parda (Nyctibius aethereus). E é claro que com a competência do Daniel os objetivos foram alcançados!

Nossa aventura começa na tarde do dia 9 no Pico da Caledônia, em Nova Friburgo, ao encontrar a Ester e o Daniel para iniciar a busca pela saudade-de-asa-cinza. Mesmo sabendo que o “azar era certo”, pois a atividade das aves diminui bastante após as primeiras horas da manhã na mata atlântica, nossa boa vontade nos motivou a buscar esta enigmática espécie que, obviamente, não se mostrou e nos deixou na saudade.

A saudade-de-asa-cinza parece preferir se deslocar sob a neblina que encobre as florestas acima dos 1700 metros de altitude, quando as “matas nebulares” da Serra dos Órgãos fazem jus ao seu nome. Esta peculiar condição acontece principalmente nas primeiras horas da manhã, o que nos motivou para mais uma investida nos primeiros tons amarelados do dia 10 de setembro. E o resultado não poderia ser outro:

Cabe salientar, mais uma vez, que os limitados 1400 quilômetros quadrados de distribuição dos prováveis 1700 indivíduos adultos de saudades-de-asa-cinza podem sofrer declínio quando incêndios, criminosos ou naturais, fragmentam e diminuem seu habitat ao longo do tempo. Esta ameaça é real e colocada em evidência neste vídeo em que a Ester está clicando a saudade-de-asa-cinza pousada sobre uma área de mata nebular recentemente queimada. Cada metro quadrado de habitat que é perdido, aumenta o grau de ameaça deste icônico endemismo das montanhas fluminenses.

Após o feito da saudade-de-asa-cinza pela manhã, nos despedimos do Daniel Mello e de Nova Friburgo e seguimos para o que restou das matas semidecíduas do Vale do Paraíba, na cidade de Carmo, em busca do formigueiro-da-serra (Formicivora serrana). Não tardou para que um casal se apresentasse para nós! Ainda tivemos tempo de observar o ameaçado cuitelão (Jacamaralcyon tridactila) que ainda persiste em ocorrer nas sobras florestais que resistiram ao ciclo econômico do café. Concluído satisfatoriamente o registro destes endemismos tupiniquins, partimos para nosso próximo destino: o Parque Estadual das Lagoas do Açu (PELag), em Campos dos Goytacazes.

Chegamos no início da noite do dia 10 em Campos, para na manhã seguinte iniciarmos nossa busca pelo socoí-amarelo (Ixobrychus involucris) no PELag. Na manhã do dia 11 fomos recebidos pelo guarda-parque e amigo Samir Mansur e o pescador local e barqueiro Fabrício “Ruído”. Importante salientar o belo trabalho socioambiental que a equipe do PELag faz com a comunidade de pescadores artesanais da Lagoa do Açu. Mesmo com a criação desta Unidade de Conservação de uso indireto, que impossibilitaria a continuidade das atividades pesqueiras in loco, o entendimento sobre a necessidade deste ambiente lacustre para a manutenção do modus vivendi da comunidade de pescadores fez com que a administração do parque conciliasse a conservação ambiental com a social. Um dos incentivos foi o cadastramento dos pecadores locais para atuarem como condutores de passeios de barco na lagoa do Açu. Assim, pescadores como o Ruído podem transmitir um pouco do seu saber-fazer para os visitantes e gerar renda para suas famílias. E o Ruído se mostrou extremamente habilidoso e prestativo em nos mostrar cada canto da lagoa onde ele havia visto o socoí-amarelo! Logo nos primeiros minutos observamos o primeiro e único socoí-amarelo do dia, que voou de um taboal logo nas proximidades de onde começamos nossa jornada. Infelizmente os ventos fortes impediram outra oportunidade em ver este habitante críptico dos ambientes alagados costeiros. Mesmo assim não deixamos de nos encantar com a beleza local, como se pode ver no vídeo abaixo:

Seguimos nossa viagem para Cabo Frio em busca do enigmático e controverso endemismo das matas secas do litoral leste fluminense, o com-com ou formigueiro-do-litoral (Formicivora littoralis). Esta espécie foi descoberta na década de 90 e separada do “complexo” Formicivora serrana que conta com outra subespécie, o F. s. interposita, que habita o médio Vale do Paraíba, no RJ. Digo controverso pois recentemente estudos apontaram que o com-com é uma população do formigueiro-da-serra que está isolada há pouco tempo das demais e que por isto não se diferenciou genética e morfologicamente ao ponto de ser uma espécie distinta. É notório que a ciência natural não é exata e que cada pesquisador é motivado por questões técnicas, financeiras e pessoais, o que enviesa qualquer resultado. Contudo, tais achados são dignos de mais atenção e estudos posteriores para corroborar ou refutar as respostas atuais. Entre discussões acadêmicas, filosóficas e egocêntricas sobre o “ser ou não ser” do com-com, a Ester foi lá e garantiu o registro. Na tarde do dia 12, em Saquarema, a Ester conseguiu clicar o bicho também e esta imagem foi a escolhida.

Já  no anoitecer do dia 11 chegamos em Maricá e fomos em busca do bacurau-da-telha (Hydropsalis longirostris) nos telhados próximos do Parque Estadual da Serra da Tiririca (PESET) e nos costões rochosos desta Unidade de Conservação. Alguns indivíduos foram observados e atraídos, mas não chegaram muito perto para uma fotografia digna, o que fez a Ester preferir uma nova tentativa em outro momento.

Na manhã seguinte, dia 12, fomos em busca das duas últimas espécies da lista: a cigarra-verdadeira (Sporophila falcirostris) e o trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea), ambos vulneráveis a extinção. O primeiro é ameaçado pelo desmatamento e tráfico de animais e o segundo está vulnerável devido a poluição dos mares e pela predação dos seus filhotes pelo gaivotão (Larus dominicanus). Tentamos a cigarra-verdadeira nos bambus floridos do PESET, mas este endemismo da Mata Atlântica brasileira que segue a frutificação dos bambus exóticos e nativos ainda não havia encontrado no parque o seu alimento. Seguimos então para a Reserva Marinha Extrativista de Itaipu, onde vive uma comunidade centenária de pescadores e iniciamos nossa busca pelo trinta-réis. Desta vez a sorte estava do nosso lado e acompanhamos o arrasto dos pescadores, o que proporcionou momentos ótimos para a Ester conseguir seu registro.

Por fim fomos em busca da cigarra-verdadeira em outro local que eu já havia a registrado há poucas semanas, em Maricá. Neste local a frutificação dos bambus exóticos do gênero Bambusa estava muito forte. E é claro que a cigarra estava lá, se esbaldando do alimento em abundância! Em uma das touceiras de bambu encontramos um casal e observamos o macho retirar e manejar com o bico finos ramos secos de um eucalipto próximo, assim como pteridófitas epífitas desta árvore, como se estivesse procurando material para confecção do ninho. Este raro encontro deixou a Ester muito feliz e a fez voltar para casa com a sensação de dever cumprido!  A prova da sua satisfação foram as inúmeras ligações de agradecimento que recebi do seu companheiro Marcos que, enfim, também se tornou um grande amigo! Espero conhecê-lo pessoalmente em um futuro próximo.

Os passarinhos às vezes nos trazem sensações difíceis de esquecer. E nesta aventura as amizades conquistadas ficarão na memória do coração.

Gostou do relato? Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

Maçarico-de-papo-vermelho em Maricá

Cinquenta anos sem ser registrado em Maricá! O registro anterior foi feito por H. Sick em 1968 e publicado em 1983 no livro “Migrações de aves na América do Sul continental”.

O exato local onde este indivíduo foi registrado é uma das mais frágeis áreas da APA de Maricá, pois há um projeto de construção de resort justamente lá!

A subespécie deste maçarico que migra para o sul da América do Sul é criticamente ameaçada em território brasileiro. Outras 18 espécies migrantes do Neártico já foram registradas na região, inclusive a sora (Porzana carolina), o que corrobora a extrema importância da Unidade de Conservação para aves migratórias no litoral fluminense.

E você, quer se aventurar em uma “maçaricada” na Costa do Sol e ajudar a divulgar a importância e fragilidade da região? Esse é o momento! Vem observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!

Balança-rabo-canela (Glaucis dohrnii) / Hook-billed Hermit

Raro e ameaçado emismo brasileiro, habitante dos sub-bosques da Mata Atlântica do sul da Bahia.

Este foi o momento do primeiro registro documentado para o município de Jequié, feito durante a Birding Tour Cabrucas.

Agradecimento mais que especial ao grande amigo, parceiro e guia local Sidiney Vitorino, quem nos acompanhou neste encontro formidável!

Estamos programando uma nova Birding Tour Cabrucas para o final de março de 2018. Para mais informações sobre o roteiro e destinos, clique aqui!

Venham observar mais que aves com a Canindé Birdwatching!